terça-feira, 2 de junho de 2015

Ledo Engano



"De uma família de pequenos agricultores, gente pobre e religiosa, saiu um filho para o seminário.
À noite, sua mãe em sua ingenuidade, sonhava com o filho regressando à terra como bispo, todo de vermelho, respeitado e prestigiado até pelos fazendeiros que tinham casa na cidade.
Do seminário, o filho escrevia e sua irmã, a única alfabetizada que restou à família, lia em voz alta as cartas à luz do candeeiro.
O rapaz falava dos campos de futebol do seminário, das quadras de basquete, do frango assado aos Domingos e das aulas de latim, grego e história.
Contava como ele tinha o dia todo para estudar, cinema aos fins de semana e como eram bonitas as festas litúrgicas no seminário.
À noite, seus pais agradeciam a Deus pela sorte do filho, livre da enxada, abrigado da chuva e sem privações em tempo de seca.
Um dia, o rapaz voltou à casa paterna para passar férias.
Seus pais mataram o melhor porco, fizeram churrasco da melhor vaca e até uma cama com colchão haviam conseguido para abrigar o filho.
Mas, de madrugada, toda a família saía para o roçado enquanto o rapaz dormia.
Enquanto seus irmãos capinavam a terra estéril, ele se debruçava sobre livros nos quais a família acreditava conter-se toda a sabedoria do mundo.
Seus irmãos não se atreviam a dirigir-lhe a palavra, envergonhavam-se da própria ignorância.
Sua mãe percebeu que o filho sentia asco de tomar água do poço e tinha os pés tão macios que já não podia andar descalço e pisar a terra que dava vida aos seus.
Quando ele falava todos escutavam com a mais profunda veneração.
Ninguém retrucava, ninguém opinava.
Sabiam que a vida dele era lá, além do morro, no fim da estrada, junto à cidade grande onde ficava o seminário.
Quando as férias acabaram, o rapaz deixou a casa e regressou aos estudos.

Na choupana da roça não ficou a tristeza. Ficou a certeza de que jamais o filho, entregue à casa de Deus, havia regressado à casa dos pais."

5 comentários:

  1. Ele foi, mudou de vida e não se sentiu mais em casa na casa dos pais... Lindo conto ! bjs, chica

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  2. É triste, pois a dedicação a Deus não significa afastar-se dos afetos. Não dá amor (religioso) sem se sentir amor. bjs

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  3. Lendo o seu conto, lembrei-me de um seminarista que conheci nos trabalhos da Pastoral Vocacional, vindo de família tão humilde, ao entrar no seminário, ele se deslumbrou com a vida que não tinha na pobreza, perdeu o foco, esqueceu suas raízes, quis o que não tinha, tornou-se o que não era! Que Deus o ajude a encontrar o seu caminho e a nós e tbm a igreja para que realmente tenhamos sacerdotes com vocação para tal!

    Grande beijo, amiga! =)
    Vivendo e Aprendendo
    Fotos e Prosas

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  4. Nem tudo é do jeito que a gente quer né?
    Tem pais que investem tudo e os filhos fingem que estão estudado qdo estão por ai.
    Outros simplesmente se jogam nos estudos, para não voltarem para suas casas,
    Qdo o orgulho entra no coração, a soberba aparece.

    bjokas =)

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  5. Gostei deveras, Rosélia! Parabéns! Meu abraço!

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