sexta-feira, 27 de abril de 2012

Amor de Vó




Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo...

Cinquenta anos, cinquenta e cinco... Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem as suas alegrias, as suas compensações — todos dizem isto embora você pessoalmente, ainda não as tenha descoberto — mas acredita.

Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Não de amores nem de paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meus Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos que hoje são seus filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento a prestações, você não encontra de modo nenhum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres - não são mais aquelas crianças que você recorda. E então um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis — aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que lhe é "devolvido". E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.

Sim, tenho certeza que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis. Aliás, desconfio muito de que os netos são melhores que namorados, pois que as violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos.

No entanto — no entanto! — nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, a rival: a mãe. Não importa que ela seja sua filha. Não deixa por isso de ser mãe do seu neto. Não importa que ela ensine o menino a lhe dar beijos e a lhe chamar de "vovozinha", e lhe conte que de noite, às vezes, ele de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais.

Rigorosamente, nas suas posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da amante dos triângulos conjugais.

A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe de comer, dá-lhe banho, veste-o. Embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ônus de castigar.

Já a avó, não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto.
Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, "não ralha nunca". Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia.

Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café — café! — mexer no armário da louça, fazer trem com as cadeiras da sala, destruir revistas, derramar a água do gato, acender e apagar a luz elétrica mil vezes se quiser e até fingir que está discando o telefone.

Riscar a parece com o lápis dizendo que foi sem querer — e ser acreditado! Fazer má-criação aos gritos e, em vez de apanhar, ir para os braços da avó e de lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação moderna.

Sabe-se que, no reino dos céus, o cristão desfruta os mais requintados prazeres da alma. Porém esses prazeres não estarão muito acima da alegria de sair de mãos dadas com o seu neto, numa manhã de sol. E olhe que aqui embaixo você ainda tem o direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados será defeso. Meu Deus, o olhar das outras avós, com os seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de inveja do seu maravilhoso neto.

E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz: "Vó!", seu coração estala de felicidade, como pão ao forno.

E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe o castiga, e ele olha para você, sabendo que, se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade e apoio... Além é claro das compensações....

Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menininho — involuntariamente! — bateu com a bola nele.

Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e depois, o sorriso malandro e aliviado porque "ninguém" se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó?

Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague.
(Raquel de Queiroz)




"Quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim."





" A felicidade é um bem que se multiplica ao ser dividido "
[Marxwell Maltz]

11 comentários:

  1. Estar com eles é alegria e felicidade mesmo!!Lindas fotos!beijos,chica

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  2. Que texto lindo!
    Deus que te abençoe junto ao teus netos!
    e que você os ame como amou teus filhos!
    pra contar mais felicidades para nós.
    bjo
    Zizi

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  3. Que lindo isso menina! Sonho em ter nos braços os filhos dos meus filhos.
    bj

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  4. Vó é bom demais. Lembro com carinho da minha vozinha. Tanta coisa aprendi com ela. A respeitar os mais velhos. A fazer crochê, que paciência ela teve para me ensinar. Só vó mesmo! Amei o seu post
    Beijos
    Adriana

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  5. Oi Rosélia,
    é lindo esse amor de avó. Imagino a sua alegria em estar com eles.
    O texto da Raquel de Quiroz é maravilhoso.
    Também amei o seu post.
    Uma ótima semana para vocês
    Beijos
    Chris
    http://inventandocomamamae.blogspot.com/

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  6. Que lindooo!!!
    Que Deus continue abençoando sua família!
    Bj bonita

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  7. Que lindo! Vejo pela minha mãe que fica mimando meu filho, faz tudo por ele a ponto de eu ter que dar um basta porque se deixar o menino faz tudo o que quer rsrsrs
    Boa semana!

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  8. Já avisei a família que mimarei todos os meus netos...rsrss
    É uma delícia ser avó.
    Gde abraço, em divina amizade.
    Sonia Guzzi

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  9. Oi Rosélia!
    Que delícia ser avó! Você é mãe sem padecer no paraiso, vive nele.rsss
    Beijinhos e um fds de muita paz e alegria!

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  10. Rosélia, que delícia ser vovó.
    Espero que eu seja uma boa avó rsrsrs

    Beijos , querida e tudo de bom sempre.
    Sheyla.

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  11. "AMOR DE VÓ"
    Amo demais os meus netinhos, Guilherme e Gabriela.
    Esse texto é maravilhoso , pena que alguns que não conseguem observar com bons olhos, pois quando Raquel usa a palavra, "Rivalidade", é no bom sentido, é no privilégio de ter alguém que ame em dobro um ser tão especial.
    Sinto saudades da minha amada sogra, mãe que deveria ser bem tratada pelos filhos, amou tanto ao filho, que o egoísmo tomou conta, não a tratou como deveria. Minha sogra, uma rival que foi madrinha do neto, na certeza do amor incondicional, a avó que fazia a comida, a farofa com todo amor, que tinha o prazer de receber aos netos e de dizer: _ Essa é a minha nora, a mãe que criou aos meus netos com amor.Ah e a minha mãe? Quando eles, os meus filhos, dizem: _ A minha avó me criou! Eu, a mãe, rsss...O que fiz, senão trabalhar das 7h às 23h, correndo para ajeitar as coisas, tentando acompanhá - los na escola, em casa, tentando passear aos finais de semana, brincar de casinha, empinar pipa, jogar bola...Tentando aguentar o coração dolorido de saudade por ficar longe, quando saíram para cursar a universidade, para trabalhar. Quanto orgulho ter uma rival que foi exemplo para eles, que os amou incondicionalmente, que me apoiou para que pudesse criá - los.
    Como pode alguém achar esse texto ofensivo?
    Como é triste a pobreza mental, a incapacidade de observar ao contexto, a insensibilidade de perceber que amar, é estar junto, é sinônimo de atenção, é desejar que os pais sejam felizes para a felicidade dos netos...
    Como fui e sou privilegiada de ter rivais abençoados, ter aos avós paternos e avós maternos sempre amando aos meus filhos. Ter também a minha cunhada que adorava sair com os meus filhos, como se fossem os seus filhos, o meu cunhado que se fazia companheiro, sempre presente em qualquer situação, doença, escola, aniversários. É necessário que alguns leiam e releiam, pensem e repensem sobre o AMOR de VÓ, um amor que quer se encher de energia, um querer apenas amar, participar, sem interesse algum, apenas sentir o prazer do AMOR MAIOR, a alegria de ser presenteada por Deus. Sentir gratidão por ser escolhida por anjos amados, recompensada com um AMOR que só Deus pode explicar.

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